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Lituânia, Mulher, de 26 a 35 anos, Lithuanian, Russian



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Momento à toa sem perspectiva correta:

surtos de vaidade.

 

 

- Oi! Quanto tempo! Está bonita!

- E por um acaso um dia fui feia?!

 

 

 

- Seu cabelo está lindo!

- Também achei! Quer o endereço do salão?

 

 

Ao apresentar a identidade:

- Não repare na data de nascimento, sei que estou bem para minha idade.

 

 

 

— Você deve ouvir sempre que escreve bem...

— Não, ouço mais elogios estéticos!

— As pessoas falam mais de seus atributos físicos?

— Não, mas as que não vejo há tempos sempre dizem que melhorei muito!

 

 

- Você usa óculos para quê?

- Enxergar...

 

 

 

Na padaria:

- Por favor, seis pães.

- Só isso?

- Não, comerei sozinha hoje à noite.

 



Escrito por Silvia B. às 12h17
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Um jeito bom de começar o ano

02 de janeiro

o dia que eu não fui a Paris

 

   Naquele dia, o segundo do ano, viveu como sempre. Deitou-se na cama, abriu o livro e se pôs a ler. Leu dez, 20, 30 páginas num piscar de olhos e só parou porque se sentiu nauseada pelas palavras. Narrar era melhor do que viver.

   Leu o trecho duas vezes em silêncio para averiguar se a interpretação profunda não era uma neurose absurda, um deslize de suas sinapses. Concluiu que não e que o autor tinha lá seus méritos.

Chamou o marido e leu em voz alta. Ele, no molde cartesiano perfeito, levantou as sobrancelhas e disse que a frase tinha lá seu pingo de verdade. Ela completou que não eram pingos, mas uma enxurrada de verdades já que ela passara os últimos anos narrando ao invés de viver. Ele, com ares de grande sábio envolto numa tonalidade pseudo freudiana, apenas sugeriu que a esposa pensasse no assunto. Ela retrucou afirmando que não bastava pensar, que nos últimos meses ela tinha começado a aprender a viver.

   Ele saiu do quarto e ela permaneceu ali. Deixou-se levar por segundos, minutos até que de repente um barulho a tirou do transe. Levantou e foi ver o que era: pilhas de papéis e pastas ocupavam o chão da sala de TV. Entre eles estava o marido. Ela, suspeitando de uma faxina típica de início de ano, disse para deixar para amanhã. Ele, com toda tranqüilidade habitual, falou sem rodeios e firulas que havia perdido um documento. Ela sorriu e ingenuamente perguntou qual. Ele, sem remorso, tristeza ou desespero, disse que era um essencial para tirar o passaporte.

   Sim, o mundo veio abaixo! Faltando 30 dias para viagem tão esperada, decidida em outubro passado, ele disse que não tinha um documento como quem descarta um salgadinho numa festa tradicional para a terceira idade. Ela chorou, sentiu raiva, mágoa e principalmente remorso. Arrependeu-se de ter divido o sonho e todas as frases feitas que ela já tinha ouvido falar com ele. Lembrou-se de como gastou horas, dias e noites planejando as façanhas, desventuras e finais felizes na Cidade Luz, de como seria meio Maga, de como beberiam vinho e tomariam café respirando Voltaire, Cortazar, Picasso, Sartre... Sentiu-se a mais nova atração circense, cheia de babados e bolas nas roupas. Ouviu risadas ensandecidas, viu dedos pontiagudos em sua direção. Sentiu vergonha de si mesma e concluiu que não valia a pena viver: era mais seguro apenas narrar, transformar em caractere sua tragédia pessoal. Um texto tolo e banal sobre o episódio minimizaria esse 02 de janeiro, o dia que eu não fui a Paris.       

Escrito por Silvia B. às 15h17
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